sábado, 5 de julho de 2008

Artigos e Notícias

O Inventor do Churrasco de Banco da Vitória

A tradição de comer carne assada em Banco da Vitória se reporta aos velhos tempos quando se assavam carnes de bois ou de porcos nas fogueiras do Matadouro Municipal de Ilhéus e as comiam como tira-gostos em bares da região de Banco da Vitória. Quem iniciou esse hábito pitoresco no “quiosque” de Dico, perto do Matadouro, foi o saudoso funcionário da Prefeitura Municipal de Ilhéus, Seu Nafital de Souza, marido da ‘nossa’ amada professora Gláucia.

Nafital era um intelectual primoroso e leitor compulsivo. Tinha o hábito de andar sempre com um livro nas mãos e era um exímio jogador de futebol. Além de trabalhar na Administração do Distrito de Banco da Vitória como escrevente, Nafital atuava também como açougueiro amador nos finais de semana na feira de Ilhéus.

Nafital, acompanhado de Pedro Melo, Tonho de Nouzinho, Seu Ailton Costa, Zé Carioca, Zé da Linhagem, Formiga, Buré e vários outros homens do ’sangue’, adoravam comer carnes assadas e distribuir espetinhos para os amigos e fregueses dos bares próximos ao matadouro.

Foi Dico quem primeiro viu uma oportunidade de negócios na idéia de Nafital e profissionalizou o ‘assado’. Com isso se iniciou o ciclo da tradição de churrascarias em Banco da Vitória. Depois do sucesso de Dico, vieram os Bares de Seu Diva e de Juarez, – esse último que se tornou um dos mais famosos churrascos de Ilhéus, nos anos 80 e 90. Em pouco tempo o cheiro do Banco da Vitória se tornou o aroma dos churrascos. O cupim do boi, aqui chamado de mamilo, se tornou tão famoso quanto os pitus e robalos do rio cachoeira.

Hoje Banco da Vitória têm hoje verdadeiras churrascarias altamente profissionalizadas que oferecem diariamente carnes de alta qualidade para mais de três centenas de clientes. Tudo isso cria empregos e oportunidades para muita gente da nossa comunidade.

Por certo, Seu Nafital, com os seus famosos ‘assados’ de rabo e lombos de porcos, jamais imaginou que o seu hábito culinário iria transformar todo o bairro de Banco da Vitória. Devemos tudo isso a ele e os seus amigos de boêmia e comilança.

Quando de folga, Seu Nefital gostava de andar sem camisa, usando uma bermuda larga, que ele dobrava na cintura, como se a prendesse para não a deixar cair. Ele era uma amante mor do pingado chamado de rabo-de-galo e dizia que só bebia comendo. Nafital era um pacifista nato e homem muito respeitado em nossa comunidade. Mesmo trabalhando no matadouro, ele jamais usava uma faca na cintura. Preferia mantê-as enroladas em panos e escondidas dentro do seu tradicional bocapio, que sempre vinha pendurado no seu braço esquerdo. Só tinha uma coisa que deveras lhe irritava: pessoas que falavam mal de Banco da Vitória. Para essas pessoas mal-quistas, ele mostrava o caminho da rodagem e dizia: - Ilhéus fica logo ali e Itabuna fica na outra direção. Adeus!

Nafital costumava ir se banhar no Rio Cachoeira no meio da noite. Normalmente ele ia até a Pedra de Guerra, com uma tarrafa nas costas e ficava contemplando o Rio Cachoeira, as matas da outra margens e o céu impar de Banco da Vitória. Depois pegava uns peixes, se banhava com o famoso sabonete ‘Vale Quanto Pesa’ e voltava do seu banho noturno. Minutos depois, ele se sentava na porta da sua casa, – que ficava em frente ao Clube Social -, e mergulhava nas suas leituras. Depois de dois dedos de prosa com seu Josias Xavier e seu Faustino, ele ia dormir no aconchegante leito do seu lar.

Numa noite de um triste domingo, ficamos sabendo que seu Nefital não iria voltar mais para casa, nem para a administração, nem para o matadouro. Chamado por Deus, ele foi ensinar a arte de fazer churrascos vegetarianos para os anjos e querubins. Até hoje ele continua pescando estrelas nos vastos universos celestiais.

O Banco da Vitória precisa fazer uma homenagem a esse homem tão importante para a nossa história e cultura. Afinal, todas as vezes que você sentir o cheiro dos churrascos nos ares do Banco da Vitória, lembre-se que tudo isso começou com ele, Nafital ‘dos espetos e assados’. O homem que sabia reunir amigos e construir belos sonhos. Sua família é prova disso.