segunda-feira, 6 de abril de 2009

Livro Banco da Vitória - A História Esquecida




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A história de Banco da Vitória do Rio Cachoeira – Ilhéus – Bahia - Brasil

Leia grátis os 02 primeiros capítulos do Banco da Vitória - A História Esquecida - de autoria de Roberto Carlos Rodrigues.



Banco da Vitória - A História Esquecida

"Lembras o que não pode ser esquecido.

E esquece o que não deve ser lembrado."

Isidro


A Historia, segundo os léxicos, acontece somente debaixo dos olhares dos observadores. Dessa maneira, para que algo seja classificado como elemento histórico ele precisa de mínimo de duas coisas inexoráveis: observadores e registros. Ou seja, é preciso que haja pessoas observando os fatos e realizando seus devidos registros - com a maior imparcialidade possível. Somente assim - volto a frisar -, se pode alicerçar uma história fidedigna e coerente com os preceitos históricos.

São exatamente nesses dois aspectos que a história do Banco da Vitória malogra, peca e se esvai pelas tranças e manhas dos tempos. Os observadores iniciais - os jesuítas, desbravadores, cabos-de-guerra e portugueses degredados que por aqui passaram -, jamais imaginaram que as margens do rio caudaloso que descia para a foz pacata de Ilhéus, um arruado perto da freguesia de São Jorge dos Ilhéos (grafia antiga), iria surgir um povoado. Por último, raríssimos registros foram feitos dessa região, haja vista que na época dos desbravamentos iniciais ali era somente mata densa a beira de um rio sem nome. Muitas das informações primordiais da origem de Banco da Vitória foram feitas através da oralidade, depois, descritas pelos jesuítas, que tinham o dom da escrita.

A história de Ilhéus é precedida da Historia Banco da Vitória e estão visceralmente ligadas a do Rio Cachoeira. Por esse motivo, vamos nos ater um pouco a história de Ilhéus, - a nossa terra mãe -, e depois ao do Rio Cachoeira para então podermos entender melhor a nossa história.

Francisco Borges Barros no seu livro "Memória Sobre o Município de Ilhéus" publicado em 1915, cita que a capitania de São Jorge dos Ilhéos foi doada pela coroa portuguesa a Jorge de Figueiredo Corrêa, em 26 de junho de 1534, e o Foral de 11 de março de 1535, registrando as folhas 70 do livro 10 da Chancelaria de D. João III, de 01 de abril de 1535. Jorge de Figueiredo Corrêa possuía cinqüenta léguas de costa contadas a partir do sul da Ilha de Itaparica. Para colonizar a nova posse, Jorge de Figueiredo Corrêa enviou um castelhano autoritário e rude homem de guerra, um Loco-Tenente chamado de Francisco Romero. Nesse mesmo ano, três caravelas saíram do Rio Tejo rumo às terras de Jorge de Figueiredo Corrêa. Primeiro esse grupo de desbravadores ficou bandeira na ilha de Tinharé, onde estar localizado o Morro de São Paulo (atualmente distrito de Valença). Pouco tempo depois, os topógrafos da expedição acharam um local mais apropriado para fundar uma vila: era a baia de Ilhéos. Em 1535 os portugueses fundaram a vila de São Jorge no cume do atual Morro de São Sebastião. Logo a vila se desenvolver e se tornou alvo de piratas estrangeiros e ataques de índios.

Segundo Luiz Walter Coelho Filho, no seu livro "A Capitania de São Jorge e a Década do Açúcar" publicado no ano 2000 pela Editora Vila Velha, foi no ano de 1545 que Jorge de Figueiredo Corrêa doou várias sesmarias da sua capitania. Entre elas estavam a sesmaria do engenho de Santana, no Rio do engenho, para Mém de Sá, que depois seria o governador geral da Bahia e a Sesmaria de Fernão Alvares, onde estavam inseridas as terras da futura Sesmaria Vitória.

Naquelas tórridas décadas do século XVI, quando se fundou a sede da capitania de São Jorge de Ilhéus a nossa região só tinha duas cores: o verde exuberante das matas que iam além dos alcances dos olhos e o azul sem igual do céu refletido no mar impar. Onde hoje está a nossa Cidade de Ilhéus havia o encontro dos rios, depois chamados de Cachoeira, Almada e Santana que formavam um porto bastante seguro e calmo. Foi por esse motivo que os fundadores da Vila de São Jorge dos Ilhéos escolheram essa "Coroa Grande" (a junção dos rios - e os morros laterais), que lhes serviam de fortalezas naturais. Ali foi fundada a sede da capitania de São Jorge dos Ilhéos. Em 1560, Jorge de Figueiredo Corrêa vendeu a sua capitania para Lucas Giraldes, integrantes de uma família de banqueiros italianos.

Os portugueses desbravadores desta época ficaram extasiados com tamanha beleza natural e a perfeita harmonia das matas, dos ventos, dos rios e do mar de Ilhéus. As matas pareciam um bordado intransponível e cheio de mistérios e bichos. Os ventos eram brandos e propícios a navegação; os rios eram caudalosos e calmos e o mar era a porta de entrada e saída de um verdadeiro paraíso do Novo Mundo. O clima ameno dos trópicos deixou os desbravadores portugueses encantados com as condições de vida da região. As chuvas eram matinais e logo no meio das manhãs o sol surgia e ardia até o final do dia, quando a noite vinha fresca e vezeira, abanar as folhas nativas e propiciar o sono dos justos.

Todavia, nem tudo era somente a visão do paraíso. Havia a mata fechada e nela, as feras naturais, as febres e os temíveis índios aimorés. Alguns historiadores citam que na beira do mar de Ilhéus viviam os índios Camacãs, Pataxós, Hã-hã-hães e os aimorés, mais para dentro das matas. Os aimorés eram os índios dos clãs dos Jês e inimigos dos Tupis. Os índios tupis que eram receptivos, curiosos e até sociáveis, - para os padrões de razão dos portugueses daquela época. A maioria dos aimorés, contudo, era feroz, traiçoeira e principalmente canibalesca. Por esses motivos, os primeiros moradores da sede da Capitania de São Jorge dos Ilhéus, preferiram viver junto às costa, perto do mar e longe das matas e dos seus íncolas indígenas.

Mas era preciso explorar a nova pose, conhecer os limites da capitania, descobrir ouro e prata e desbravar o território. Esse esforço ficou por conta dos jesuítas, com os seus trabalhos de catequese dos índios domados e dos temíveis desbravadores, que eram tão cruéis quanto os nativos dessas terras cobertas de verde.

Em 1595 a vila de Ilhéus foi invadida pelos hereges franceses, que a saquearam e devastaram. Tempos depois, os soldados da esquadra do almirante Lichthardt, desembarcou no Pontal, fazendo dali o ponto para assaltos e ataques na vila de São Jorge dos Ilhéus. Nestas duas investidas os estrangeiros foram heroicamente repelidos pelos poucos moradores da Vila. Quando do primeiro grande ataque indígena à Vila de São Jorge dos Ilhéus, os moradores rezaram pedindo a intervenção de Nossa Senhora e venceram a batalha. É dessa época a primeira manifestação do culto a Nossa Senhora da Vitória, que seria depois a padroeira de Ilhéus. É por esse motivo que Ilhéus até hoje possui bairros, igrejas, ruas, fazendas, empresas, colégios e praças com nomes relativos à "Vitória". Como veremos a seguir, daí também advém o gameta que originou o nosso pos nome “vitória”.

Segundo Gabriel Soares, historiador e bandeirante português, os primeiros estrangeiros que chegaram à região onde hoje está localizado o bairro de Banco da Vitória provavelmente entre 1552 e 1554 foram os jesuítas da Companhia de Jesus da América do Sul e os desbravadores portugueses. Todavia, poucos registros fizeram dessas suas expedições. Os poucos que se aventuraram "além do Rio da Esperança" e subiram o rio, que posteriormente foi batizado de Cachoeira, malmente descreveram o que existia rio acima. Os jesuítas, preocupados com as domas e catequeses dos índios, provavelmente foram os primeiros que se aventuram por essas veredas e chegaram ao local onde hoje estar o bairro de Banco da Vitória. São deles os primeiros e parcos relatos orais da nossa história. Um mapa arcaico, feito por esses religiosos, é o primeiro relato histórico da nossa localização geográfica. Apesar de ter sido feito somente com referências visuais, esse mapa descreve as curvas do rio, as matas, os morros e por fim o local onde o rio se torna intransponível para a navegação devido a grande quantidade de pedras que surgem no seu leito. Alguns historiadores dizem que a exploração das margens do Rio Cachoeira foi iniciada em 1554. Todavia, há somente um registro desta empreitada. (vide capítulo sobre o Rio Cachoeira).

Faço parte do grupo que acredita que esses desbravadores portugueses não ultrapassaram os limites do 'Rio da Esperança' e que foram realmente os jesuítas os primeiros visitantes não indígenas do local onde hoje está o bairro de Banco da Vitória.

No mapa arcaico, feito depois pelos jesuítas em 1586, citado por Simão Vasconcelos no livro "Crônica da Companhia de Jesus". Nele há um local assinalado com desenho de marcas escuras aonde o rio se torna inavegável, ou seja, é a localização do Banco da Vitória. É do grupos desses mapas, um que ilustra o livro 'São Jorge dos Ilhéus" de José Carlos de Vinhares, onde se ver as descrições da baia de Ilhéus, seus afluentes e suas adjacências, e um outro mapa descrito na página 100 do livro "A Capitania de São Jorge e a Década do Açúcar" de Luiz Walter Coelho Filho. Nesses toscos mapa , o Rio Cachoeira aparece com seu curso serpenteando os morros e 'se perdendo além dos olhos', como cita um dos jesuítas desbravadores. Existem cópias destes mapas no Museu Nacional, na Biblioteca Nacional e no convento da Ordem Jesuíta no Rio de Janeiro.

Segundo os relatos dos jesuítas, o local onde o rio cachoeira não era mais navegável ficava a uma légua e meia da sede da capitania de São Jorge dos Ilhéus. (uma Légua Geométrica equivale a 6.000 metros) Para os padrões de distâncias da época, esse era um ponto geográfico bastante distante. Toda essa região era coberta de mata fechada, com feras de várias espécies e índios traiçoeiros. No Banco da Vitória, o rio cachoeira, antes caudaloso e seguro, se tornava cheio de pedras escorregadias e perigosas. Foi esse motivo que levou a sinalização geográfica dessa região. Afinal, os portugueses eram exímios cartógrafos.

Nesse cenário - reportando-se a época dos relatos dos jesuítas e dos desbravadores portugueses, o Banco da Vitória era a porta que separava o paraíso - a costa da capitania de São Jorge dos Ilhéus -, do inferno para os estranhos, que era a mata virgem e seus habitantes ferozes. Ir além da curva e das pedras, onde o rio cachoeira se torna inavegável, era, - para os moradores da freguesia da capitania de São Jorge dos Ilhéos -, a mesma coisa que abrir a porta do inferno para encontrar a morte certa, trazida pelos "demônios selvagens".

Somente os jesuítas da Companhia de Jesus, guiados por sua fé e missões se lançavam nessas aventuras. Muitos deles chegaram até os índios e domaram-nos. Outros, contudo, foram vítimas desse povo que tratava como inimigos todos que se aventuram sobre os seus domínios territoriais.

Sair da sede da freguesia de São Jorge dos Ilhéus e se embrenhar na mata, só era possível quando se tinha uma razão muito grande e esses motivo para os colonizadores era a descoberta das riquezas contidas nas terras dos índios. Essa tarefa ficou a cargo dos desbravadores portugueses, que indiferente dos jesuítas, tratavam os índios como inimigos e faziam de tudo para escravizá-los quando não, extingui-los.


Referindo ao que já citei anteriormente, acredita-se que foram os jesuítas comandados pelo padre Manoel da Nóbrega no Brasil, os primeiros estrangeiros que chegaram as redondezas de Banco da Vitória e aqui fizeram um pequeno acampamento para poder atrair os índios, doma-los e catequiza-los. É desse grupo a primeira pedra do alicerce da nossa história. Não há registros históricos da localização desse acampamento para catequeses, mas devido aos indícios que os jesuítas preferiam montar acampamentos junto às fontes de água limpa e perto do rio (para facilitar possíveis fugas!), pode-se supor que esse acampamento tenha sido montado próximo onde hoje estar à antiga sede da Administração do Bairro, no início da Rua Dois de Julho (pois ali havia um córrego com água doce e limpa). Ou no antigo sítio do saudoso José Lavigne (fundos da atual Rua Aldair do atual posto de gasolina), pois ali também havia um córrego com água dessas mesmas naturezas. Obviamente, com a leitura dos próximos capítulos deste livro, você entenderá porque se acredita que foram esses os locais do acampamento jesuíticos.

O padre Manoel da Nóbrega, que comandou as catequeses na Costa do Estado da Bahia deve ter ficado pouco tempo por essas plagas (o religioso chegou a Ilhéus em Novembro de 1549). Segundo o historiador Accioli, o religioso passou por Ilhéus, rumo a Porto Seguro, para saber como andavam as expedições jesuíticas na região. Na há relatos da saída do Padre Manoel da Nóbrega da sede da vila de São Jorge de Ilhéus. Contudo, sabe-se que as suas ordens de catequeses foram suficientes para fazer germinar o que seria anos depois o Arruado do Rio - que foi o primeiro nome que se deram as cabanas feitas pelos jesuítas nas margens do rio cachoeira para catequizar os índios aimorés. Para Ilhéus, Padre Manoel da Nóbrega enviou os padres Leonardo Nunes e Diogo Jacome. Pouco tempo depois, o Irmão Vicente Rodrigues foi substituir o padre Leonardo, que foi transferido para a vila de São Vicente, em São Paulo. Sabendo que essa catequese se iniciou entre 1552 e 1556, no mínimo a chegada dos portugueses a região de Banco da Vitória faz 452 anos.

Contudo, nem Jorge Figueiredo Correia - que jamais esteve na sua posse no Brasil, nem os jesuítas e exploradores portugueses não imaginaram que teria tanto trabalho para expulsar os verdadeiros donos dessas terras, os índios aimorés. Esse índio, como verá a seguir, estavam dispostos a não somente inibir os avanços dos portugueses nas terras brasilis, como também, estavam seriamente comprometidos em exterminar os invasores europeus.

Infelizmente, foi a partir do Banco da Vitória que muitas ‘bandeiras’ e ‘entradas’ portuguesas partiram exatamente com o intuito de expulsar e exterminar os índios dessa terra. Foi devido ao acesso a navegação quer banco da vitória foi ‘registrado’ nos anais portugueses.

Para conhecer a verdadeira história de Banco da Vitória, se faz necessário conhecer primeiro os moradores que aqui viviam antes da chegada dos exploradores portugueses. Só assim eu acredito que posamos realmente alicerçar a nossa verdadeira história. Se, por ventura, quisermos saber somente a nossa origem a partir dos portugueses, estaremos renegando uma parte importante da nossa história. Isso porque os índios, mesmo desprovidos na época das técnicas de desbravadores portugueses, foram significativamente importantes para a nossa formação sócio-cultural.


Mapa antigo de Ilhéus com indiçação do Rio Cachoeira









Antes dos Portugueses


Mas afinal, quem eram os índios aimorés que viviam em Banco da Vitória?


Antes da chegada dos portugueses a Pindorama (antigo nome do Brasil, dado pelos índios Tupis), essas terras já eram ocupadas por índios de diversas etnias. Os troncos étnicos eram os Tupis, Jês, Aruaques e Caraívas. Os Tupinambás (do grupo dos Tupis) ocupavam os territórios beira-mar que ia do Rio Grande do Sul até à Paraíba. Os índios Teremenbes ocupavam da costa do Ceará até a costa do Pará. Os Kaingangas ocupavam os interiores do Paraná, São Paulo e Santa Catarina. Os Botocudos - inimigos ferozes dos Tupinambás -, ocupavam os interiores de Minas Gerais e Bahia. Nos Pampas Gaúchos tinham os Guaranis e o Centro-Oeste do Brasil era dominado pelos Caiguas, Bororós e Mojós. O Centro do Brasil era dominado pelos Carajás, Caipós, Nhambiquaras e Caraívas. O Sertão era território dos Xavantes e o Norte era território dos Teneteara, Uaiuia e Paruagues.

Estimas-se que quando do "achamento" do Brasil em 1500 havia 3,5 milhões de índios divididos em diversas subs-etnias e línguas. O território da capitania de São Jorge dos Ilhéos era ocupado pela etnia Tupinambá na faixa costeira e os Botocudos nos interiores (fronteira de Minas Gerais). Os tupinambás, aos poucos foram perdendo território para o subgrupo Aimoré e Jês.

Quando os portugueses liderados por Francisco Romero chegaram nessas terras, quem comandava essa região eram em sua maioria os índios Aimorés. Havia ainda pequenos grupos de índios Tupinambás que estavam enfraquecidos e subdivido em grupos menores que se chamava simplesmente Tupis e ocupavam a faixa que ia do Recôncavo Baiano até o Pernambuco e os Tupiniquins (outro subgrupo dos Tupinambás) que ocupavam a faixa que ia de Porto Seguro até o estado do Espírito Santo.

Os aimorés que habitavam nas terras de Ilhéus eram temidos pelas demais etnias índias devido as suas atrocidades guerreiras e principalmente o canibalismo. Essa etnia índia era nômade e apesar de terem uma vasta faixa de terra para ocupar, preferia viver nas matas com rápidas inclusões na beira dos rios e na costa marítima. Esses índios eram amantes primazes de guerras tribais e mantinham total domínio sobre suas terras que iam dos limites do Mar de Ilhéus até os atuais municípios de do Planalto da Conquista (Sudoeste do Estado da Bahia). As tribos aimorés eram formadas de 30 a 40 indivíduos que falavam a mesma língua, tinham os mesmos costumes e possuíam um sentimento de unidade. Não existia uma autoridade central na tribo. Cada uma das aldeias constituía uma unidade política independente, com um chefe que não se distinguia dos demais homens, caçava, pescava e trabalhava nas roças com qualquer um. Só em caso de guerra o comando era entregue ao Morubixaba. Havia ainda um chefe para as cerimônias religiosas, que tinha grande influência sobre o grupo. Ele era também o curandeiro da tribo, cuidando dos doentes com ervas medicinais e magia. Não havia nem escravos nem uma camada dominante, pois as técnicas rudimentares forçavam todos trabalharem igualmente. Essa forma de organização dá-se o nome de comunidade primitiva.

As atividades agrícolas eram realizadas rudimentarmente nas florestas, dada à fertilidade das terras. A caça, a pesca, a coleta e a exploração de recursos naturais eram bastante utilizadas, haja vista a abundância desses meios de subsistência.

Os jesuítas da Companhia de Jesus identificaram duas línguas básicas entre os índios do litoral do Brasil. Os Tupis, povo da "língua geral" e os Tapuias, povos de "língua travada". Estes últimos foram depois identificados com Jês. Para poder lidar com as tribos, os jesuítas aprenderam a língua tupi.

Os jesuítas observaram que os aimorés tinham traços físicos bens definidos. Os homens eram corpulentos (quase dois metros de altura e pesavam em média 80 quilos), e eram possuidores de admiráveis forças físicas. A pele era queimada, em tons de marrom. Usavam cabelos longos ao sabor dos ventos. Andavam nus, apesar de utilizarem peças feitas de penas e folhas para cobrirem as genitálias. Eram desprovidos de pêlos por todo o corpo. Em contra partida as mulheres eram de estrutura mediana, mas com a mesma cor dos homens. Costumavam manter os cabelos longos até a adolescência e depois de casadas, mantinham curtos. Adornavam os corpos como que encontravam na natureza - penas de aves, folhas de plantas nativas, raízes e utilizavam pedaços de paus e cocos para fazerem brincos, colares, pulseiras e outros utensílios.

Os homens aimorés normalmente viviam entre centro e cinqüenta e duzentos anos de idade. As mulheres viviam em média cem anos. Quando atingiam essas idades, todos, indiferentes de sexos, eram reverenciados e altamente respeitados por toda tribo. Os mais jovens protegiam e alimentavam os mais idosos. Quando estavam doentes, eram visitados, amparados e ajudados pelos amigos. Quando a doença não havia cura, os aimorés sacrificavam o doente, para que não houvesse sofrimento. A causa mais freqüente de óbito entre os índios era o veneno de cobra, quando não a morte na guerra. Entre as cobras venenosas haviam as temidas surucucu pico de jaca, a jararaca, o jaracuçu e a coral. Entre as serpentes não venenosas havia a jibóia, cainana e a salamandra.

Entre as mulheres indígenas, a virgindade era muito valorizada. Os namoros e casamentos eram sempre arrumados pelos pais. Quando uma donzela não conseguia um pretendente, era levada para o chefe da tribo que a possuía e lhe mantinha como mais uma esposa. As festas de casamento duravam cinco dias e os matrimônios eram severos, apesar da poligamia. Possuir várias mulheres era sinal de prestígio. O adultério era raro e o marido podia expulsar a ré, depois de açoitá-la. Na maioria dos casos as adúlteras eram mortas pelo marido e devoradas pelas demais esposas.

Os aimorés possuíam semblante ameaçador, corriam iguais as feras e por isso eram muito temidos. Eram fisicamente fortes, de temperamentos inconsistentes e fáceis de ser levados a fazerem o mal. Ao irem para a guerra, marchavam em silêncio, mas no embate faziam bastante alarido jogando setas envenenadas das quais os feridos jamais escapavam. Os índios aimorés se enfeitavam todos os seus corpos para irem à guerra. Suas armas eram as flechas, as pranchetas, arcos e dardos. Usavam também as clavas e machados de mão. Quando conseguia derrubar o inimigo, o guerreiro aimoré usava também os dentes para arrancar peles e carnes dos seus inimigos.

Os aimorés levavam uma vida descuidosa e preferiam dormir sobre as árvores. Não semeava, pouco plantavam (somente mandioca) e só se esforçavam por causas nobres (caçar, pescar e guerrear). Alimentava-se principalmente de caças, frutas, mel de abelhas, maribondos, flores e peixes. Comiam caças frescas sem temperos ou condimentos. Para assar carnes ou peixes, os aimorés faziam um buraco na terra, colocavam a carne, enterravam pondo folhas de árvores em cima e faziam uma fogueira por cima de tudo. Entre os seus principais alimentos se destacavam a banana da terra, inhames, abacaxi, jerimum, milho, aipim, tapioca, mandioca, feijão, batata e arroz nativo. Nas festas era servido um tipo de bebida alcoólica feita com a mandioca fermentada. Essa bebida se chamava cauim ou caulim e era tão forte quanto o atual éter derivado do álcool. Além de possuírem amplos conhecimentos da flora medicinal, os aimorés fumavam e bebiam ervas alucinógenas e usavam um tipo de fumo nativo, altamente tóxico, chamado babaça-umnumi. Entre as ervas usadas em rituais religiosos e de guerra se destacavam um tipo de cogumelo marrom, que nascia sobre as fezes de alguns animais; o sumo da corneta branca (flor normalmente encontrado perto de brejos ou alagadiços, altamente tóxica e venenosa) e as folhas de um tipo de ramagem chamada 'cadaca', um parente próximo da alfafa.

Ao contrário dos tupis, que eram ceramistas espetaculares, os aimorés pouco trabalhavam com barro e utilizavam madeiras ocas e bambus para guardar alimentos ou sementes.

A religião dos aimorés era naturalista com forte apelo animalista. Eles usavam as forças da natureza como o trovão, a lua, o sol para representar os seus deuses e acreditavam em alguns animais como sagrados, como os morcegos, as cobras e algumas aves. Os índios admiravam algumas constelações celestes como divindades e conheciam as forças das quadras da lua na influência da agricultura, pesca, caça e até na fecundação.

Os aimorés não faziam nada sem antes consultar os feiticeiros e adivinhos. De modo geral, a religião dos índios brasileiros lembrava um pouco as religiões africanas, no tocante a influência forte de feitiços na vida indígena. Os jesuítas que aqui chegaram denominaram esses atos culturais de selvagens e diabalescos. Depois de vários contatos com os índios, os religiosos portugueses perceberam que essas manifestações eram somente uma questão de costumes e que não apresentavam nenhuma prática não explicada pela antropologia.

Um outro detalhe que chamou a atenção dos jesuítas na comunidade aimorés foi a não existência de indivíduos com qualquer tipo de deficiência física. Depois se descobriu que todos os índios brasileiros sacrificavam as crianças nascidas com qualquer tipo de deficiência física ou mental.

A língua falada pelos aimorés era truncada, como se dita na caixa torácica do indivíduo. A linguagem era muito mal entendida, pois era trêmula, cantada e de estropio nasal. As palavras eram muito parecidas e pronunciadas com musicalidade específica. Os assobios era uma linguagem à parte. Muito utilizado nas caçadas e principalmente nas guerras. Foram os assobios e salvos de pios dos aimorés, as primeiras manifestações de linguagem que os jesuítas aprenderam e utilizaram para manter contatos com indígenas que habitavam a capitania de São Jorge dos Ilhéos.

As primeiras aldeias encontradas pelos jesuítas nas terras de Ilhéus eram pequenas, com 40 indivíduos no máximo. Depois se descobriu que a quantidade de aldeias é que era grande. Naquela época se estimou que os índios aimorés na região de Ilhéus e adjacências chegavam a um número de 100 mil indivíduos.

Em 1570 foi assinada a Carta Régia que dava a liberdade aos índios brasileiros. Todavia, somente em 1755, o Marquês de Pombal, assegura a lei de liberdade desses índios. Lamentavelmente, em apenas 200 anos, os colonos portugueses extinguiram quase todos os índios da nossa região. Hoje, na região de Banco da Vitória não há nenhum registro histórico da existência dos índios nesse local.

Na pedra de Guerra havia algumas inscrições rupestres que foram destruídas por vândalos; no local da antiga aldeia aimorés, próxima a atual ponte para Maria Jape, nada mais se ver que lembre esse local religioso, descrito pelos desbravadores portugueses.

Contudo, no tocante a cultura indígena na nossa comunidade, não temos muito o que comemorar. Todavia, no ano 2003, foi encontrado no Rio Cachoeira, pelos pescadores de ostras de Banco da Vitória, uma pedra de machado indígena que possui aproximadamente 600 anos. Essa relíquia, graça a Deus veio parar em nossas mãos e foi preservada. Hoje ela estar sendo analisada por um museu carioca e assim que for catalogada, será envida para a nossa comunidade como forma de peça histórica de valor incalculável.

Os índios, bem antes dos portugueses e depois os escravos africanos, já tinham escolhido a localidade de Banco da Vitória para viver devido ao Rio Cachoeira. Esse motivo se deve ao fato de ser nesta localidade onde a mar pára de exercer a sua força aquática das marés. Isso, para os índios aimorés era sinal de local sagrado, banhado pelo grande deus das águas.

O Rio Cachoeira, com a força das suas marés, inocentemente trouxe os desbravadores portugueses para o paraíso dos Índios de Banco da Vitória. Estes, sem saberem o porquê, deixaram os domínios de Iara e se emprenharam nas terras de Tupã. Jamais voltaram.

Roberto Carlos Rodrigues,

Em Breve, TEM MAIS!!

BANCO DA VITÓRIA - A História Esquecida

Índice

1. Agradecimentos

2. Apresentação

3. A história esquecida

4. Antes dos Portugueses

5. Rio Cachoeira

6. Descobridores e desbravadores

7. O Terceiro Povo

8. A Sesmaria Vitória e o Engenho da Fazenda Vitória

9. A Rainha (ou princesa) da Vitória?

10. A trilha do banco

11. O Arraial do Banco

12. O povoado de Banco da Vitória

13. A origem do nome Banco da Vitória

14. A Visita do Príncipe Maximiliano ao Banco da Vitória

15. Os tempos áureos do cacau

16. O declínio do Banco da Vitória

17. O Bairro de Banco da Vitória

18. Os ‘bairros’ de Banco da Vitória

19. ‘O Meu Banco da Vitória’

20. Banco da Vitória Hoje

21. As Sementes da Vitória

22. Fatos históricos, Pitorescos e Estórias da nossa gente

23. Referências e Curiosidades

24. Passa Régua

25. Referências Oitivas

26.Referências Bibliográficas

Anexos

Moradores ilustres e velhos esquecidos