A História de Banco da Vitória - Antes dos portugueses

Capítulo - 05 - Antes dos Portugueses

Por Roberto Carlos Rodrigues.

            Para conhecer a verdadeira história de Banco da Vitória se faz necessário também conhecer primeiro os moradores que ali viviam antes da chegada dos exploradores portugueses em solos brasileiros. Só assim, acredito que possamos realmente alicerçar a nossa verdadeira história.
            Se, por ventura, quisermos saber somente a origem a partir dos desbravadores portugueses, estaremos renegando uma parte importante da história. Isso porque os índios, mesmo desprovidos na época das técnicas dos desbravadores portugueses, foram significativamente importantes para a nossa formação sociocultural.
            Decerto, para os indígenas locais, na época do desbravamento inicial do Brasil, a localidade de Banco da Vitória não existia. Porém, como logo veremos, a grande pedra existente na margem direita do Rio Cachoeira, em Banco da Vitória, era um local sagrado e disputado por diversas tribos. Essa grande pedra – conhecida atualmente como Pedra de Guerra – está localizada nas proximidades dos fundos da Igreja Católica, na Praça Guilherme Xavier.
            Então, devemos inicialmente nos questionar:
            Mas, afinal, quem eram os índios que viviam na região de Banco da Vitória do Rio Cachoeira na época dos desbravamentos portugueses? Como esse local era conhecido pelos índios? Como os índios chamavam a região de Banco da Vitória?
            Vamos às respostas:
            Antes da chegada dos portugueses a Pindorama (antigo nome do Brasil pré-Cabral, dado pelos índios tupi-guarani, derivação de pindó-rama ou pindó-retama, que significa "terra/lugar/região das palmeiras"), essas terras já eram ocupadas por índios de diversas etnias.
            Os troncos étnicos eram os Tupi, Jês, Aruaques e Caraívas. Os Tupinambá (do grupo dos Tupi) ocupavam os territórios da beira-mar que ia do Rio Grande do Sul até a Paraíba. Os índios Teremenbes ocupavam da costa do Ceará até a costa do Pará. Os Kaingangas ocupavam os interiores do Paraná, São Paulo e Santa Catarina. Os Botocudos – inimigos ferozes dos Tupinambá – ocupavam os interiores de Minas Gerais e Bahia. Nos Pampas Gaúchos, havia os Guaranis e o Centro-Oeste do Brasil era dominado pelos Caiguas, Bororós e Mojós. O Centro do Brasil era dominado pelos Carajás, Caipós, Nhambiquaras e Caraívas. O Sertão era território dos Xavantes e o Norte era território dos Teneteara, Uaiuia e Paruagues. Estima-se que quando do "achamento" do Brasil em 1500 havia 3,5 milhões de índios divididos em diversas sub-etnias e línguas.
            Antes de 1550, o território da capitania de São Jorge dos Ilhéus era ocupado pela etnia Tupinambá, na faixa costeira, e os Botocudos nos interiores (fronteira do atual estado de Minas Gerais).
            Segundo diversos estudos antropológicos, na época do desbravamento do Brasil, os Tupinambá tinham perdido grande parte do seu território para o subgrupo de índios Aimorés e Jês.
            Segundo estes mesmos estudos, havia ainda pequenos grupos de índios Tupinambá que estavam enfraquecidos e subdivididos em grupos menores que se chamavam simplesmente Tupi e que ocupavam a faixa territorial que ia do Recôncavo Baiano até o Estado de Pernambuco; e os Tupiniquins (outro subgrupo dos Tupinambá) que ocupavam a faixa que ia de Porto Seguro até o Estado do Espírito Santo.
            Quando os portugueses, liderados por Francisco Romero, chegaram às terras ilheenses, quem comandava essa região eram, em sua maioria, os índios Tupi, dos subgrupos Tupiniquins. Havia também os Tupinambá mais ao norte do litoral baiano e os Aimorés mais para o interior das matas.
            Os índios tupiniquins de Ilhéus viviam exclusivamente no litoral. Estes índios sabiam nadar – ao contrário dos Aimorés, que não dominavam essa técnica.
            Os tupiniquins eram amigáveis e foram fundamentais para a construção da vila de São Jorge dos Ilhéus. Esses índios eram exímios caçadores e pescadores. Dominavam as técnicas rudimentares de cerâmicas e cestaria. Viviam em cabanas cobertas de palhas de palmeiras e dormiam sobre um tipo de cama feita de madeira fina, chamada “giróis”.
            Normalmente, as cabanas eram coletivas e formavam pequenas aldeias. Os índios tupiniquins eram hospedeiros e não praticavam comumente o canibalismo. Essa prática ocorria entre estes indígenas ao término das guerras contra os Tupinambá ou os temidos Aimorés.
            A aproximação e convívio pacífico dos índios tupiniquins com os desbravadores não duraram muito tempo devido a proposta portuguesa de escravidão dos íncolas. Obviamente, os índios tupiniquins não aceitaram os métodos de escravidão impostos pelos colonizadores portugueses e logo tiveram início diversos atritos e ataques entre esses povos.
            Os primeiros engenhos de açúcar e plantações de cana nas margens do Rio Cachoeira foram feitos pela mão de obra dos índios tupiniquins. Devido aos maus tratos dos desbravadores portugueses e principalmente ao escravismo os índios Tupiniquins se revoltaram e resolveram invadir a vila de São Jorge dos Ilhéus no ano de 1559.
            Diante dos ataques indígenas que provocaram destruições de diversas fazendas e engenhos de açúcar, o então governador da Bahia, Mém de Sá, veio a Ilhéus resolvido a debelar os ataques dos índios nesta região. Nesta sua empreitada centenas de índios foram assassinados e os seus corpos ficaram expostos na praia da região do Cururupe. Este episódio ficou conhecido como a Batalha dos Nadadores devido a carnificina que ocorreu nesta praia. Nesta época, se intensificaram as expedições para aprisionar índios para servirem de escravos nas roças e engenhos de açúcar da capitania de São Jorge dos Ilhéus.
            Alguns historiadores citam que quando aprisionados muitos índios da região de Ilhéus promoviam suicídios em massa.
            Em 1599, foram trazidos índios tapuias para trabalharem como escravos no Engenho de Santana em Ilhéus. Em 1603, foram trazidos índios potiguares para combater os temíveis índios Aimorés que atormentavam as plantações, principalmente nas margens do rio Cachoeira.
            Os índios Aimorés jamais foram escravizados com sucesso em solo brasileiro. Estes índios não aceitavam ordens de ninguém e preferiam morrer sobre açoites a trabalhar como escravos.
            Analisando com afinco as cartas e relatos de Anquires Liois, proprietário do Engenho do Taipe, registrado em Cartório Público (segundo o historiador Stuart Schwartz), descobre-se que um dos grandes motivos das constantes guerras e ataques de índios nas plantações às margens do rio Cachoeira o corria devido ao caráter religioso da proximidade desses locais para os índios de diversas etnias que viviam nessa região.
            Sabe-se pelos relatos dos religiosos e fazendeiros da época que os índios Aimorés – que temiam assustadoramente a água dos rios e principalmente as águas do mar – preferiam fazer seus sacrifícios e celebrações religiosas nas pedras grandes, à margem esquerda do rio Cachoeira. Somente os feiticeiros e os grandes guerreiros dessa etnia podiam ir até esse local sagrado.
Alguns desbravadores portugueses do rio Cachoeira, sabiam que a grande pedra escura existente na margem esquerda do rio cachoeira na região de Banco da Vitória, era local sagrado para os índios. Estes desbravadores relataram que este local era utilizado para fazer oferendas e sacrifícios em homenagem aos deuses e divindades indígenas. Provavelmente neste local cultuava-se principalmente as divindades Iara, a rainha das águas, Jaci e Tupã.
            Os índios Aimorés chamavam uma grande pedra existente na margem esquerda do rio Cachoeira (na altura da localidade de Banco da Vitória) de uma-ytá ou umaitá, que significava, em tupi, pedra escura (Atualmente esse local se chama Pedra de Guerra, devido ao antigo morador das proximidades que se chamava José Guerra, dono de uma roça nesse local).
            Já os índios tupiniquins chamavam a região de Banco da Vitória de Paranapecú, que significava no seu idioma “língua do mar”. Esses índios acreditavam que a maré que subia o rio Cachoeira era uma língua do mar que vinha afugentar os seus inimigos Aimorés, que detestavam se aventurar pelas águas fundas.
            Depois do Banco da Vitória, subindo o rio Cachoeira, os índios tupiniquins chamavam o rio de “Itatiba”, que significa, em tupi, muitas pedras.
            O termo aimoré na língua tupi antiga significava flauta ruim. Isso, porque esses índios utilizavam um botoque de madeira no lábio inferior da boca que impedia de tocar flauta. Para tocar este instrumento musical, os Aimorés usavam o nariz e consequentemente produziam sons diferentes da flauta convencional feita de bambu.
            Os Aimorés que habitavam nas terras de Ilhéus eram temidos pelas demais etnias devido as suas atrocidades guerreiras e principalmente o canibalismo. Essa etnia índia era nômade e, apesar de ter uma vasta faixa de terra para ocupar, preferia viver nas matas com rápidas inclusões nas beiras dos rios. Raramente os Aimorés iam até o mar, que era chamado por eles de añaretá (inferno), em tupi.
            Os índios Aimorés eram amantes primazes de guerras tribais e mantinham total domínio sobre suas terras que iam dos limites oeste de Ilhéus até os atuais municípios de Planalto da Conquista (Sudoeste do Estado da Bahia).
            As tribos Aimorés eram formadas por 30 a 40 indivíduos que falavam a mesma língua, tinham os mesmos costumes e possuíam um sentimento de unidade. Não existia uma autoridade central na tribo. Cada uma das aldeias constituía uma unidade política independente, com um chefe que não se distinguia dos demais homens, que também caçava e pescava. Só em caso de guerra o comando era entregue ao morubixaba. Havia ainda o chefe para as cerimônias religiosas que tinha grande influência sobre o grupo. O morubixaba era também o curandeiro da tribo, cuidando dos doentes com ervas medicinais e magia. Nessas comunidades não havia nem escravos nem uma camada dominante entre os índios Aimorés, pois as técnicas rudimentares forçavam todos a viverem igualmente. Essa forma de organização tem o nome de comunidade primitiva.
            As tribos tupiniquins, por sua vez, normalmente tinham agrupamentos superiores a 300 indivíduos. A caça, a pesca, a coleta e a exploração de recursos naturais eram bastante utilizadas, haja vista a abundância desses meios de subsistência. Já os índios Aimorés eram exclusivamente extrativistas e não plantavam nada devido ao seu caráter nômade e guerreiro. Estes índios preferiam saquear as plantações dos tupiniquins e portugueses e depois destruí-las. As atividades agrícolas eram realizadas rudimentarmente nas florestas pelos índios tupiniquins, dada a fertilidade das terras.
            Os jesuítas da Companhia de Jesus identificaram duas línguas básicas entre os índios do litoral do Brasil. Os Tupi, povo da "língua geral", e os Tapuias, povos de "língua travada". Estes últimos foram depois identificados como Jês. Para poder lidar com as tribos brasileiras os jesuítas aprenderam a língua Tupi.
            A língua falada pelos índios Aimorés era truncada, como se dita na caixa torácica do indivíduo. A linguagem era muito mal-entendida, pois era trêmula, cantada e de estropio nasal. As palavras eram muito parecidas e pronunciadas com musicalidade específica. Os assobios eram uma linguagem à parte, muito utilizados nas caçadas e principalmente nas guerras. Foram os assobios e salvos de pios dos Aimorés e Tupi as primeiras manifestações de linguagem que os jesuítas aprenderam e utilizaram para manter contatos com indígenas que habitavam a capitania de São Jorge dos Ilhéus.
            Os jesuítas observaram que os índios Aimorés tinham traços físicos bens definidos. Os homens eram corpulentos (quase dois metros de altura e pesavam em média 90 quilos), e eram possuidores de admiráveis forças físicas. A pele era queimada em tons de marrom. Usavam cabelos longos ao sabor dos ventos. Andavam nus, apesar de utilizarem peças feitas de penas e folhas para cobrirem a genitália. Eram desprovidos de pelos no corpo. Em contrapartida, as mulheres eram de estatura mediana, mas com a mesma cor dos homens. Elas costumavam manter os cabelos longos até a adolescência e depois de casadas mantinham curtos. Adornavam os corpos como que encontravam na natureza – penas de aves, folhas de plantas nativas e raízes, e utilizavam pedaços de paus e cacos de cocos para fazerem brincos, colares, pulseiras e outros utensílios.
            Naquela época, os homens Aimorés normalmente viviam entre oitenta e cento e vinte anos de idade. As mulheres viviam, em média, oitenta anos. Quando atingiam essas idades, todos, independentemente do sexo, eram reverenciados e altamente respeitados pela tribo. Os índios mais jovens protegiam e alimentavam os mais idosos. Quando algum índio estava doente, ele era visitado, amparado e ajudado pelos companheiros. Quando para a doença não havia cura, os Aimorés sacrificavam o doente, de modo a evitar o sofrimento.
            A causa mais frequente de óbito entre os índios jovens era o veneno de cobra, quando não a morte na guerra. Entre as cobras venenosas existentes na capitania de São Jorge dos Ilhéus se destacavam as temidas surucucus bico de jaca, a jararaca, a jaracuçu e a cobra coral. Entre as serpentes não venenosas havia a jiboia, caninana e a salamandra.
            Entre as mulheres indígenas de todas as etnias, a virgindade era muito valorizada. Os namoros e casamentos eram sempre arrumados pelos pais. Quando uma donzela não conseguia um pretendente, ela era levada para o chefe da tribo que a possuía e lhe mantinha como mais uma esposa.
            As festas de casamento indígenas duravam cinco dias e os matrimônios eram severos, apesar da poligamia. Possuir várias mulheres indígenas era sinal de prestígio social. O adultério era raro e o marido podia expulsar a adúltera, depois de açoitá-la. Entre os Aimorés, na maioria dos casos, as adúlteras eram mortas pelo marido e devoradas pelas demais esposas.
            Os índios Aimorés possuíam semblante ameaçador, corriam como feras e, por isso, eram muito temidos pelos demais índios e desbravadores portugueses. Os Aimorés eram fisicamente fortes, de temperamentos inconsistentes e fáceis de serem levados a fazerem o mal. Ao irem para a guerra, marchavam em silêncio, com a barriga pintada de preto, mas no embate faziam bastante alarido jogando setas envenenadas das quais os feridos jamais escapavam. Suas armas eram as flechas, as pranchetas, arcos e dardos. Usavam também as clavas e machados de mão. Quando conseguia derrubar o inimigo, o guerreiro aimoré usava também os dentes para arrancar peles e carnes do moribundo. Esses índios, durante os ataques, não reconheciam diferença entre homens, mulheres e crianças. Todos inimigos eram mortos com a mesma crueldade.
            Os índios Aimorés levavam uma vida descuidada e preferiam dormir sobre as árvores ou no chão. Esses íncolas não semeavam, pouco plantavam (raramente mandioca) e só se esforçavam por causas nobres (caçar, pescar e guerrear). Alimentavam-se principalmente de caças, frutas, mel de abelhas, maribondos, flores e peixes. Comiam caças frescas sem temperos ou condimentos. Para assar carnes ou peixes, os Aimorés faziam um buraco na terra, colocavam a carne sobre folhas, enterravam pondo folhas de árvores em cima e faziam uma fogueira por cima de tudo. Entre os seus principais alimentos se destacavam a banana da terra, inhames, abacaxi, jerimum, milho, aipim, tapioca, mandioca, feijão, batata e arroz nativo.
            Nas festas religiosas dos povos indígenas da região de Ilhéus era servido um tipo de bebida alcoólica feita com a mandioca fermentada. Essa bebida se chamava “cauim” ou “caulim” e tinha forte teor alcoólico. Além de possuírem amplos conhecimentos da flora medicinal, os índios dessa região fumavam e bebiam ervas alucinógenas e usavam um tipo de fumo nativo, altamente tóxico, chamado “yabaça-umumi”.
            Entre as ervas alucinógenas usadas em rituais religiosos e de guerras indígenas, se destacava um tipo de cogumelo marrom, que nascia sobre as fezes de alguns animais silvestres. Esses cogumelos eram secos ao sol e mascados antes dos rituais religiosos.
            Nesses rituais era utilizado também o sumo de uma planta chamada pelos indígenas de aitim-igá – hoje conhecida como Trombeta-branca (Brugmansia suaveolens) e as folhas de um tipo de ramagem chamada de “a-adaca”, um parente próximo da alfafa.
            Ao contrário dos Tupi, que eram ceramistas espetaculares, os Aimorés pouco trabalhavam com barro e utilizavam madeiras ocas e bambus para guardar alimentos ou utensílios. Com o bambu, os índios Tupi faziam um tipo de ferramenta de corte parecido com o facão.
            A religião dos índios brasileiros era naturalista com forte apelo animalista. Esses povos usavam as forças da natureza como o trovão, a lua e o sol para representar seus deuses e acreditavam que alguns animais eram sagrados, como os morcegos, as cobras e algumas aves. Esses índios admiravam algumas constelações celestes como divindades e conheciam as forças das quadras da lua na influência da agricultura, pesca, caça e até na fecundação.
            Os índios brasileiros dos anos quinhentistas não faziam nada sem antes consultar os feiticeiros e adivinhos. De modo geral, a religião dos índios brasileiros lembrava um pouco as religiões africanas no tocante à influência forte de feitiços na vida indígena.
            Os jesuítas que chegaram ao Brasil denominaram esses atos religiosos e culturais de selvagens e diabólicos. Depois de vários contatos com os índios brasileiros, os religiosos portugueses perceberam que essas manifestações eram somente uma questão de costumes e que não apresentavam nenhuma prática não explicada pela antropologia.
            Outro detalhe que chamou a atenção dos jesuítas nas comunidades indígenas brasileiras foi foto de não existirem indivíduos com qualquer tipo de deficiência física ou mental. Depois se descobriu que todos os índios brasileiros sacrificavam as crianças nascidas com qualquer tipo de deficiência física ou mental.

            Quanto aos costumes dos índios Aimorés, vale citar uma curiosidade: eles temiam os trovões e os raios. Assim que começavam as épocas de chuvas fortes, estes índios não guerreavam e se escondiam em cavernas e ocos de árvores. Esses índios só saíam depois desses esconderijos depois que os céus voltavam aos seus tons de azul.
            As primeiras aldeias Aimorés encontradas pelos jesuítas nas terras de Ilhéus eram pequenas, com 40 indivíduos no máximo. Depois se descobriu que a quantidade de aldeias é que era grande. Naquela época, se estimou que os índios Aimorés na região de Ilhéus e adjacências chegavam ao número de 100 mil indivíduos. A quantidade dos Tupi foi estimada em 800 mil no litoral baiano.
            Em 1570, foi assinada a Carta Régia que dava liberdade aos índios brasileiros. Todavia, somente em 1755, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal assegurou a lei de liberdade desses índios. Lamentavelmente, em apenas 200 anos, os colonos portugueses extinguiram quase todos os índios da região do sul da Bahia. Atualmente, na região de Banco da Vitória, não há nenhum registro histórico da existência dos índios nesse local.
            Na atual Pedra de Guerra, havia algumas inscrições rupestres feitas por antigos índios. Na década de 1980 do século passado, esses desenhos foram destruídos por vândalos. Vários moradores da localidade tiveram a oportunidade de ver estas pinturas rupestres. Infelizmente, naquela época, não havia máquinas fotográficas para registrá-las.
            Como se observa pelos registros históricos, a região de Banco da Vitória era, na época do desbravamento inicial dessa região, disputada principalmente pelos índios Aimorés e pelos Tupiniquins.
            Segundo os jesuítas comandados pelo padre Manoel da Nóbrega, os tupiniquins tinham supremacia sobre a região oeste da capitania de São Jorge dos Ilhéus, uma vez que a região da Lagoa Encantada (outro local sagrado para os índios Tupi) era dominada pelos remanescentes dos Tupinambá, que nessa época eram inimigos dos tupiniquins e dos Aimorés.
            Os índios Aimorés, como já disse, tinham medo de água, mas faziam muitas incursões na região de Banco da Vitória, pois neste eles podiam atravessar o rio Cachoeira nos locais onde as pedras afloram nos remansos das marés, facilitando assim a sua travessia segura.
            Já os índios tupiniquins que habitavam e protegiam seus territórios na região de Banco da Vitória utilizavam esse local, tido como religioso, para promover ataques aos índios Aimorés, principalmente durante as travessias do rio.
            Em oitivas obtidas com seu João Batista, o antigo coveiro local, e Tiago Cardoso (pai de lendário Bibogo), ficamos sabendo que havia um cemitério de índios na proximidade da Mata da Rinha, por trás do atual bairro do Alto do Iraque.
            Segundo essas oitivas, quando da construção da primeira estrada entre Ilhéus e Itabuna, foi descoberto este cemitério, que infelizmente foi prontamente destruído e descaracterizado pelos trabalhadores desta obra.
            Outro cemitério indígena teria sido encontrado por trabalhadores rurais da extensão da Prefeitura de Ilhéus, quando da abertura da estrada que liga Banco da Vitória ao distrito de Maria Jape, isso no início dos anos oitenta do século passado.
            Segundo seu Juca Pereira (pai de Dui), os tratores remexeram as terras sem a devida importância arqueológica e o patrimônio histórico foi totalmente perdido.
            Segundo essa mesma fonte, técnicos da Ceplac (Comissão Executiva de Planejamento da Lavoura Cacaueira) tentaram revertera situação da destruição do cemitério indígena, mas, diante da atroz situação, não tiveram êxito, pois o cemitério era pequeno e fora totalmente destruído.
            Havia também depoimentos de moradores de Banco da Vitória que existia outro cemitério indígena num local chamado antigamente de Banco do Furtado, (um banco de areia que existia no Rio Cachoeira, próximo a atual fazenda Porto Novo). Esse cemitério também foi destruído no final do século XIX para dá lugar a plantação de cacau.

            Os índios da região de Ilhéus – bem antes dos portugueses e depois os escravos africanos já tinham escolhido a localidade de Banco da Vitória para viver, devido ao ato simbólico e religioso do rio Cachoeira e por causa da força das marés do Oceano Atlântico, que dava a este rio toque verdadeiramente celestial de renovação de paisagens. Esses motivos nos reportam para a importância da nossa localidade para a cultura e sociedade baiana. Isso se fundamenta porque os índios de Ilhéus jamais acreditaram que iam perder a batalha para os invasores portugueses. Pindorama, para eles, era o verdadeiro local protegido pelos seus deuses.
            O rio Cachoeira, com a força das suas marés e dos ventos tropicais, inocentemente trouxe os desbravadores portugueses para o paraíso dos índios de Banco da Vitória e todo o oeste da capitania de São Jorge dos Ilhéus. Os índios que sobreviveram aos diversos ataques portugueses tiveram de fugir dessa região, sem jamais saber o porquê dessas investidas. Os índios deixaram os domínios de Iara e se embrenharam nas terras de Tupã. Jamais voltaram.