Ruy Tatu, O Eremita de Banco da Vitória.


Por Roberto Carlos Rodrigues
O eremita de Banco da Vitória se chamava Ruy Tatu e não tinha registro de nascimento. Ele costumava dizer que seu nome era Ruy dos Santos, mas era conhecido em nossa comunidade apenas como Ruy Tatu. Ruy ganhou esse apelido devido às caças que ele vendia todos os sábados na feira de Banco da Vitória, onde os tatus eram os maiores e mais bonitos. Todavia, muitos acreditavam e o chamavam de Rui Tatu por que ele vivia literalmente num buraco, debaixo de uma rocha, nas imediações do Morro do Miliqui, nos limites dos municípios de Ilhéus e Uruçuca. 

Ruy Tatu era um homem negro não usava armas de fogo para caçar. Normalmente as caças eram pegas em armadilhas ou então golpeadas com facões ou foices, na maioria dos casos nas cabeças dos animais. Ruy costumava caçar enveredando no mato e seguindo as trilhas dos animais. Como ele próprio dizia, muitas vezes, em suas tocaias o animal se aproximava dele sem sentir a sua presença. Esse era o seu artifício de caças. Para tanto, o caçador do Morro do Miliqui evitava se banhar durante suas caçadas e comumente andava nu no meio da mata. Depois de matar qualquer animal, ele dizia que rezava para a alma dos bichos.

Todos os sábados Ruy Tatu ia até a feira do Banco da Vitória e ali vendia rapidamente as suas caças espetaculares. Eram tatus, capivaras, teiús, pacas, jacarés e algumas aves como perdizes, sabiás, irerês, patos e pirús selvagens. Em pouco mais de uma hora todas as caças eram vendidas e Ruy ia então comprar suas mercadorias para levar para sua toca. Ele comprava peixes salgados, carne de boi, sal, um pouco de pó de café, aguardente e algumas velas. O dinheiro que ele arrecadava em suas vendas ninguém nunca soube o que ele fazia.

Quando ia ao Banco da Vitória ele vestia uma calça curta amarrada por uma tira de corda e uma camisa, ambas rasgadas. Jamais ele usou sapatos em sua vida e apesar de ganhar muitas roupas de presente, notava-se que ele utilizava uma roupa até acabar, sem jamais lavá-la.

Ruy Tatu tinha uma baixa estatura e mal-mente chegava a um metro e meio de altura. Ele não pesava mais que cinquenta quilos e sempre andava com um facão amolado pendurado na cintura. Quando ia ao Banco da Vitória ele passava o dia inteiro na comunidade e muitas vezes comprava coisas como vários espelhos, brinquedos, cadernos, lápis, panelas, corte de tecidos, bolos etc. Muita gente sabia que aquele utensílios deviam ser dados de presente a alguém. Mas jamais se descobriu para quem Ruy dava essas coisas, já que na sua toca onde ele morava não havia nada que identificasse uma moradia. A cama era uma tarimba de biriba, coberta com palhas de palmeiras. Não ali havia bancos, cadeiras, armários etc.

Algumas roupas doadas ficavam penduradas nas árvores próximas a sua toca. O fogo era aceso no terreiro e as panelas ficavam também penduradas em artes de bambus. Ruy raramente recebia visitas e quando isso acontecia, ele estava sempre escondido no meio da mata observando cuidadosamente quem se aproximava da sua toca. Quando isso ocorria era os seus amigos Courinho, Veio Cotó, Xisto e Tiago Gomes, Antônio Cardoso e o velho João Batista, que também caçava naquela região. 

Pouco se sabe da origem de Ruy Tatu e da sua família. Ele dizia que seu pai tinha sido escravo nas bandas de Lagoa Encantada e que ele foi para os limites da antiga Sesmaria Victória, levado por uma tia que o criara. Ali ficou até o resto da sua vida. Havia pessoas em Banco da Vitória que dizia que Ruy Tatu tinha mais de 100 anos quando morreu em 1998. Ruy passou muitos dias sem aparecer em Banco da Vitória e isso chamou a atenção de alguns moradores que foram até a sua toca e o encontraram bastante doente devido as inflamações nos pés provocados por contaminação de bichos de porcos. Levado para o hospital de Ilhéus, Ruy se recuperou e depois foi transferido para uma casa de repouso em Itabuna, onde morreu em menos de 30 dias de internação.

Como ele bem sabia, viver em sociedade não combinava com o seu estilo de vida eremita. Antes de morreu Ruy perguntou a uma freira se ele seria perdoado por Deus por ter matado tantos animais. A religiosa sorriu e disse-lhe que ele já tinha sido perdoado por ter vivido como um verdadeiro anjo das matas. Logo depois Ruy descansou em paz e um dos seus sonhos não foi realizado. Ser sepultado no cemitério de Banco da Vitória. Ruy Tatu foi sepultado numa cova rasa do cemitério de Itabuna e sobre sua sepultura só havia um pedaço velho de madeira com três números escritos. O eremita do Banco da Vitória se transformou então num indigente morto.