A Trilha do Banco (da Vitória).

Até o ano de1709, havia poucas incursões para o interior da capitania de São Jorge dos Ilhéus. O limite a oeste pode-se dizer que era o engenho da Sesmaria Victória.
            Naquela época, quem infernizava as matas da redondeza já não eram mais os velhos Aimorés, mas sim os Gueréns (um ramo dos Aimorés) – índios de origem no sertão da Bahia que invadiram os domínios dos Aimorés e aterrorizaram essas bandas.
            Os Gueréns eram tão ferozes quanto os Aimorés. Todavia, ao contrário desses últimos, preferiam viver longe das margens dos rios e faziam somente ataques-surpresa aos engenhos de açúcar e fazendas da região.
            Em 1747, citando Silva Campos, o desbravador sertanista João Gonçalves da Costa desbravou as margens do rio Cachoeira, indo até os sertões (atual região próxima a Vitória da Conquista - BA). É dessa época a primeira nomeação extraoficial da Trilha do Banco. Uma picada aberta que margeava o lado esquerdo do rio Cachoeira indo até além da atual cidade de Itabuna, até a Vila de Ferradas.
            Era comum nessa época os desbravadores utilizarem canoas e pequenos barcos para alcançar o banco de areia existente no rio Cachoeira e a partir de ali adentrarem a Trilha do Banco, indo andando ou em lombos de burros e mulas para os sertões da Bahia e Minas Gerais. Próximo à atual Vila de Cachoeira a Trilha do Banco mudava de nome e se chamava Trilha do Rio e se estendia com este nome até a Vila de Ferradas (atual bairro de Itabuna) onde, de fato iniciava-se a trilha titulada DE Caminho dos Sertões ou Caminho para Minas.
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            A Trilha do Banco que margeava o rio Cachoeira foi utilizada por séculos por desbravadores, jesuítas e depois fazendeiros de cacau. O seu papel foi fundamental para a exploração e consolidação da região cacaueira do sul da Bahia.

            Documentos históricos citados por diversos autores relatam que somente depois de 1820 a região sul da Bahia começou efetivamente ser explorada e desbravada e muito para isso contribuiu a Trilha do Banco, que era o local onde as canoas e barcos chegavam e dali partiam homens, mulheres, crianças, animais de cargas e todos os tipos de mercadorias. O atual Banco da Vitória era, portanto, a porta de entrada e de saída das matas Atlânticas, em direção a Ilhéus e os sertões, pelo curso do rio Cachoeira.
            A partir de 1810 os desbravadores que vinham da Vila de Ilhéus chegavam de canoas ao Arraial do Banco e dali adentravam na "trilha do Banco" e iam até a "Vila de Cachoeira de Itabuna", então um pequeno arruado (em torno de dez choupanas e um pequeno curral), no meio do caminho entre as atuais cidades de Ilhéus e Itabuna.

Em 1815, apareciam as primeiras referências aos fatos ligados ao povoamento do território que constituiu o atual município de Itabuna.

            Entre os anos de 1812 e 1815, dois fatos históricos marcaram a capitania de São Jorge dos Ilhéus. O primeiro foi a abertura de uma estrada ligando a vila de Ilhéus ao sertão da Ressaca, como era chamada a região do Arraial da Conquista (atual cidade de Vitória da Conquista). A estrada foi concluída em 1815 e teve como ponto de partida as margens dos rios Cachoeira, Salgado e Gavião. Esta obra foi concebida pelo engenheiro e financista mineiro Felisberto Caldeira Brant, marques de Barbacena e utilizou a mão-de-obra de mais de 240 escravos e índios das missões. Essa estrada tinha a extensão de 42 léguas e tinha como objetivo principal escoar mercadorias dos sertões de Minas pelo porto de Ilhéus.

O segundo fato foi a visita do príncipe Maximiliano Wed-Neuwied (entre 1818 e 1819), insigne naturalista que visitou diversas terras da antiga capitania de São Jorge dos Ilhéus, em 1816, indo depois além de Vitória da Conquista e fronteiras de Minas[1].



[1] Esse é um dos Maximilianos que por aqui estiveram. Vide capítulo à parte.

Banco da Vitória - Foto aérea completa


Banco da Vitória - Foto aérea completa. Crédito de captura de tela: José Salomão.

Banco da Vitória em 1928 - por Roberto Carlos Rodrigues.



"Depois da curva o rio encontra os lábios do mar. É a maré salobra. A mata é de um verde brilhoso que cerca as paisagens e anuncia o verdadeiro paraíso indicado pela inesquecível Pedra de Guerra. 

Do céu azul impar respingam pássaros e sonhos de todas as naturezas, cores e possibilidades. É o inesquecível cobertor do lugar.

Nas águas mansas do velho Rio Cachoeira fervilham peixes e mariscos em profusões jamais vistas em todas essas plagas. Aqui não há fome e a paz reina entre a natureza e suas crias.

Nos ares mornos desse lugar, o aroma da terra suada perfuma a vida de um povo feliz pela própria natureza. O cacau brota de árvores em milhares de caules e, como os dias que despencam dos antigos calendários, fazem a alegria dos vivos. Tudo aqui é possível. Sabe-se facilmente. Basta somente o trabalho e a fé. O resto, a terra cuida e protege. 

Sabe-se logo que se está em Banco da Vitória do Rio Cachoeira. O destino dos sonhos possíveis. Ainda não é Ilhéus, se ver pela falta do mar aberto e pelo aroma ainda fraco da maresia. Mas, por certo, o melhor lugar do mundo já foi alcançado.

Pelo menos é assim que pensam os moradores deste lugar. É assim que eles se orgulham e se defendem. São felizes com o privilégio divino de viver neste maravilhoso lugar. Ali são amados e amantes.

Se ainda há melhor lugar, então eu sei que preciso de novas caminhadas. Pois estou em Banco da Vitória. Na verdade, sinto-me realmente vivo e pronto para brotar na terra que tanto sonhei encontrar.”

Eterno Maroto de Banco da Vitória

Maroto de Banco da Vitória - Marivaldo Gomes de Assis.

Banco da Vitória – Dados e Informações

Foto: José Nazal

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A comunidade de Banco da Vitória é um bairro da cidade de Ilhéus, Estado da Bahia. A sua localização se dá entre a margem esquerda o Rio Cachoeira e o morros pertencentes a Mata da Esperança. Esses morros são o Alto da Santa Clara, Alto da Bela Vista e Alto da Mata da Rinha (Morro do Iraque). A nossa localização geográfica é Latitude 14o.78’ 21” Longitude 39o. 09’ 89”(medição feita com GPS na Praça Guilherme Xavier) e Altitude 6,5 metros nesse local e 178 metros na Praça do Alto da Bela Vista.
O Banco da Vitória dista 06 quilômetros da área urbana da cidade de Ilhéus e está a 8,7 quilômetros do centro municipal. A comunidade fica a 20 quilômetros da cidade de Itabuna, sendo que nessa direção da rodovia temos as comunidades do Assentamento Frei Vantuy, a Vila de Cachoeira, a UESC, o bairro de Salobrinho e a CEPLAC.
Os limites territoriais de Banco da Vitória são: entre Banco da Vitória e Japu: começava na nascente do Ribeirão da Inhaíba, seguindo em linha reta, na direção oeste até encontrar o Ribeirão Jacarecica; sobe por este até encontrar os limites de Itabuna. Entre Ilhéus e Banco da Vitória: começava na foz do Ribeirão do Iguape, no Canal do Fundão, segue até a ponte da estrada de rodagem de Itabuna; daí em reta até o Rio Cachoeira na foz do Ribeirão de São João, pelo qual sobe até sua nascente; dali em reta até a nascente do Ribeirão da Inhaíba
A comunidade tem sistema de telefonia pertencente ao código de área de número 073 e prefixo telefônico do grupo 3675. O sistema de transporte se dá basicamente pela Rodovia Jorge Amado (BA 417) que corta a localidade no sentido leste oeste, margeando o Rio Cachoeira. O serviço público de transporte é oferecido por duas empresas, com linhas diretas para Ilhéus e Itabuna.
Estima-se a população humana de Banco da Vitória em torno de 10 mil moradores. Sendo que, pouco mais de 05 mil são eleitores. A nossa comunidade é um pólo de alimentação regional, com diversos restaurantes ao longo da Rodovia Jorge Amado que oferecem comidas como churrascos, assados, moquecas, pitus, camarões etc.
O Banco da Vitória é uma das localidades mais antigas da Região Cacaueira e foi por muitos anos um forte centro comercial regional. Isso principalmente no início do século XX com o desenvolvimento da lavoura cacaueira no sul da Bahia.
Antes dos portugueses, a região do Banco da Vitória e toda a margem o Rio Cachoeira era habitada por índios aimorés e tupiniquins. Com a colonização portuguesa das Sesmarias Ilheenses, se iniciou no ano de 1554 a ocupação da área onde hoje se localiza o Banco da Vitória. Essa ocupação ocorreu devido ao fato de o Rio Cachoeira ser navegável somente entre Ilhéus e o Banco da Vitória. Dessa forma, esse local se tornou um anteposto dos desbravadores e colonizadores das terras do sul da Bahia, como cita o historiador Silva Campos, no seu livro Crônica da Capitania de São Jorge dos Ilhéus.
Na região de Banco da Vitória se implantou no final do século XV um próspero empreendimento agrícola de nome Sesmaria Vitória. Séculos depois, essa sesmaria se transformou na Fazenda Victória, que existe até hoje em nossa comunidade.
O Banco da Vitória é a terra natal de Aldair Santos do Nascimento, mais conhecido como Aldair, nascido em 30 de Novembro de 1965. Aldair é jogador de futebol que atuou como zagueiro do Flamengo, Benfica (PT) e da Roma(IT) e da seleção brasileira. Ele participou de 03 Copas do Mundo e foi tetra campeã da Copa 1994, nos USA.
Conheça mais sobre o Banco da Vitória no livro: Banco da Vitória – História Esquecida, de Roberto Carlos Rodrigues.
Foto: José Nazal
Veja a seguir algumas fotos da nossa comunidade.

Ruy Tatu, O Eremita de Banco da Vitória.


Por Roberto Carlos Rodrigues

O eremita de Banco da Vitória se chamava Ruy Tatu e não tinha registro de nascimento. Ele costumava dizer que seu nome era Ruy dos Santos, mas era conhecido em nossa comunidade apenas como Ruy Tatu. Ruy ganhou esse apelido devido às caças que ele vendia todos os sábados na feira de Banco da Vitória, onde os tatus eram os maiores e mais bonitos. Todavia, muitos acreditavam e o chamavam de Rui Tatu por que ele vivia literalmente num buraco, debaixo de uma rocha, nas imediações do Morro do Miliqui, nos limites dos municípios de Ilhéus e Uruçuca.

Ruy Tatu era um homem negro não usava armas de fogo para caçar. Normalmente as caças eram pegas em armadilhas ou então golpeadas com facões ou foices, na maioria dos casos nas cabeças dos animais. Ruy costumava caçar enveredando no mato e seguindo as trilhas dos animais. Como ele próprio dizia, muitas vezes, em suas tocaias o animal se aproximava dele sem sentir a sua presença. Esse era o seu artifício de caças. Para tanto, o caçador do Morro do Miliqui evitava se banhar durante suas caçadas e comumente andava nu no meio da mata. Depois de matar qualquer animal, ele dizia que rezava para a alma dos bichos.

Todos os sábados Ruy Tatu ia até a feira do Banco da Vitória e ali vendia rapidamente as suas caças espetaculares. Eram tatus, capivaras, teiús, pacas, jacarés e algumas aves como perdizes, sabiás, irerês, patos e pirús selvagens. Em pouco mais de uma hora todas as caças eram vendidas e Ruy ia então comprar suas mercadorias para levar para sua toca. Ele comprava peixes salgados, carne de boi, sal, um pouco de pó de café, aguardente e algumas velas. O dinheiro que ele arrecadava em suas vendas ninguém nunca soube o que ele fazia.

Quando ia ao Banco da Vitória ele vestia uma calça curta amarrada por uma tira de corda e uma camisa, ambas rasgadas. Jamais ele usou sapatos em sua vida e apesar de ganhar muitas roupas de presente, notava-se que ele utilizava uma roupa até acabar, sem jamais lavá-la.

Ruy Tatu tinha uma baixa estatura e malmente chegava a um metro e meio de altura. Ele não pesava mais que cinqüenta quilos e sempre andava com um facão amolado pendurado na cintura. Quando ia ao Banco da Vitória ele passava o dia inteiro na comunidade e muitas vezes comprava coisas como vários espelhos, brinquedos, cadernos, lápis, panelas, corte de tecidos, bolos etc. Muita gente sabia que aquele utensílios deviam ser dados de presente a alguém. Mas jamais se descobriu para quem Ruy dava essas coisas, já que na sua toca onde ele morava não havia nada que identificasse uma moradia. A cama era uma tarimba de biriba, coberta com palhas de palmeiras. Não ali havia bancos, cadeiras, armários etc.

Algumas roupas doadas ficavam penduradas nas árvores próximas a sua toca. O fogo era aceso no terreiro e as panelas ficavam também penduradas em artes de bambus. Ruy raramente recebia visitas e quando isso acontecia, ele estava sempre escondido no meio da mata observando cuidadosamente quem se aproximava da sua toca. Quando isso ocorria era os seus amigos Courinho, Veio Cotó, Xisto e Tiago Gomes, Antônio Cardoso e o velho João Batista, que também caçava naquela região.

Pouco se sabe da origem de Ruy Tatu e da sua família. Ele dizia que seu pai tinha sido escravo nas bandas de Lagoa Encantada e que ele foi para os limites da antiga Sesmaria Victória, levado por uma tia que o criara. Ali ficou até o resto da sua vida. Havia pessoas em Banco da Vitória que dizia que Ruy Tatu tinha mais de 100 anos quando morreu em 1998. Ruy passou muitos dias sem aparecer em Banco da Vitória e isso chamou a atenção de alguns moradores que foram até a sua toca e o encontraram bastante doente devido as inflamações nos pés provocados por contaminação de bichos de porcos. Levado para o hospital de Ilhéus, Ruy se recuperou e depois foi transferido para uma casa de repouso em Itabuna, onde morreu em menos de 30 dias de internação.

Como ele bem sabia, viver em sociedade não combinava com o seu estilo de vida eremita. Antes de morreu Ruy perguntou a uma freira se ele seria perdoado por Deus por ter matado tantos animais. A religiosa sorriu e disse-lhe que ele já tinha sido perdoado por ter vivido como um verdadeiro anjo das matas. Logo depois Ruy descansou em paz e um dos seus sonhos não foi realizado. Ser sepultado no cemitério de Banco da Vitória. Ruy Tatu foi sepultado numa cova rasa do cemitério de Itabuna e sobre sua sepultura só havia um pedaço velho de madeira com três números escritos. O eremita do Banco da Vitória se transformou então num indigente morto.

A História de Banco da Vitória - Antes dos portugueses

Capítulo - 05 - Antes dos Portugueses

Por Roberto Carlos Rodrigues.

            Para conhecer a verdadeira história de Banco da Vitória se faz necessário também conhecer primeiro os moradores que ali viviam antes da chegada dos exploradores portugueses em solos brasileiros. Só assim, acredito que possamos realmente alicerçar a nossa verdadeira história.
            Se, por ventura, quisermos saber somente a origem a partir dos desbravadores portugueses, estaremos renegando uma parte importante da história. Isso porque os índios, mesmo desprovidos na época das técnicas dos desbravadores portugueses, foram significativamente importantes para a nossa formação sociocultural.
            Decerto, para os indígenas locais, na época do desbravamento inicial do Brasil, a localidade de Banco da Vitória não existia. Porém, como logo veremos, a grande pedra existente na margem direita do Rio Cachoeira, em Banco da Vitória, era um local sagrado e disputado por diversas tribos. Essa grande pedra – conhecida atualmente como Pedra de Guerra – está localizada nas proximidades dos fundos da Igreja Católica, na Praça Guilherme Xavier.
            Então, devemos inicialmente nos questionar:
            Mas, afinal, quem eram os índios que viviam na região de Banco da Vitória do Rio Cachoeira na época dos desbravamentos portugueses? Como esse local era conhecido pelos índios? Como os índios chamavam a região de Banco da Vitória?
            Vamos às respostas:
            Antes da chegada dos portugueses a Pindorama (antigo nome do Brasil pré-Cabral, dado pelos índios tupi-guarani, derivação de pindó-rama ou pindó-retama, que significa "terra/lugar/região das palmeiras"), essas terras já eram ocupadas por índios de diversas etnias.
            Os troncos étnicos eram os Tupi, Jês, Aruaques e Caraívas. Os Tupinambá (do grupo dos Tupi) ocupavam os territórios da beira-mar que ia do Rio Grande do Sul até a Paraíba. Os índios Teremenbes ocupavam da costa do Ceará até a costa do Pará. Os Kaingangas ocupavam os interiores do Paraná, São Paulo e Santa Catarina. Os Botocudos – inimigos ferozes dos Tupinambá – ocupavam os interiores de Minas Gerais e Bahia. Nos Pampas Gaúchos, havia os Guaranis e o Centro-Oeste do Brasil era dominado pelos Caiguas, Bororós e Mojós. O Centro do Brasil era dominado pelos Carajás, Caipós, Nhambiquaras e Caraívas. O Sertão era território dos Xavantes e o Norte era território dos Teneteara, Uaiuia e Paruagues. Estima-se que quando do "achamento" do Brasil em 1500 havia 3,5 milhões de índios divididos em diversas sub-etnias e línguas.
            Antes de 1550, o território da capitania de São Jorge dos Ilhéus era ocupado pela etnia Tupinambá, na faixa costeira, e os Botocudos nos interiores (fronteira do atual estado de Minas Gerais).
            Segundo diversos estudos antropológicos, na época do desbravamento do Brasil, os Tupinambá tinham perdido grande parte do seu território para o subgrupo de índios Aimorés e Jês.

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